1ª Parte - Perigo em Talbor

1ª Parte - Perigo em Talbor

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Perigo em Talbor

O ar está carregado, fumaça de cachimbos e cigarrilhas permeia o teto do bar da estalagem Grande Urso na cidade Efner, nas terras de Turya. Em meio a conversas acaloradas e tentativas de flertes com as garçonetes por parte dos viajantes que comiam e bebiam a vontade, uma melodia encantadora serpenteava por entre as mesas oferecendo a seus ouvintes uma sensação de aconchego e segurança enquanto a chuva despencava do céu relampejante. Acontece que esta noite Santiago Froy está em Efner, “O fantástico bardo viajante”, é como gosta de ser chamado e por algumas moedas de ouro ele alegra os clientes da estalagem.
- Você acha que consegue passar pelas armadilhas Truar? – disse um homem de armas corpulento em uma mesa com um grupo de possíveis aventureiros
- Mas é claro Gruk! – respondeu o pequenino ladrão – Lembre-se que salvei sua vida várias vezes.
- Já basta. – disse a elfa maga Litar – Truar fará o papel dele. Mas ainda precisaremos de um clérigo para olhar por nós nessa busca.
Lentamente Santiago Froy se aproximou, ainda dedilhando seu alaúde e se esforçando para saciar sua curiosidade.
- No caminho para a Vila de Talbor passaremos por um templo de Harkimedes, talvez encontremos algum clérigo com espírito aventureiro. – disse o arqueiro.
- Assim que chegarmos a vila nos hospedaremos e não perderemos tempo em sair para o bosque onde ainda devemos achar a entrada para o subterrâneo – começou a elfa desenhando com o dedo na mesa – segundo histórias contadas sobre o local ninguém conseguiu encontrar a entrada.
- Fiquei sabendo que os Arautos da Vitória a encontraram! – exclamou Truar
- Bah! Isso é lenda. – disse Gruk batendo na mesa com a palma da mão – existem muitas lendas sobre os Arautos da Vitória e não sei se acredito em metade delas. E digo mais...
Gruk interrompeu a fala quando percebeu que o bardo já se encontrava sentado a mesa, ainda dedilhando sua canção.
- Nossa! Perdoe-me senhores – apressou-se Santiago Froy – fiquei curioso com a conversa e me deixei levar por lembranças.
- Você é muito intrometido bardo! – berrou Gruk.
- Acalme-se Gruk. – disse Litar, a elfa, pousando sua mão sobre o braço de Gruk e em seguida dirigindo-se a Santiago – Que tipo de lembranças bardo?
- Lembranças de quando caminhei lado a lado com os Arautos da Vitória. – disse misterioso
O bar mergulhou em silêncio imediato, até mesmo os relâmpagos cessaram. Ao som dos pingos de chuva do lado de fora, Litar perguntou:
- Você conhece os Arautos da Vitória? Ou é um truque para ficar famoso?
- Que ultraje! – disse Santiago levantando bruscamente – Eu sou Santiago Froy, “O fantástico bardo viajante”, somente canto sobre histórias verídicas, meus senhores.
- Entendemos bardo. – amenizou Litar – Estamos de partida para a vila de Talbor. Pode nos contar algo sobre a...
- A entrada para o Cofre de Krip – disse Santiago – onde está o túmulo de Magalor.
O silêncio recebeu a companhia de olhos arregalados.
- Exatamente o que queremos Santiago. Pode nos contar o que sabe?
Santiago Froy olhou em volta e viu que todo o bar estava atendo a ele. Então, segurou seu alaúde e saltou para cima da mesa dizendo:
- Pois bem meus senhores. Prestem muita atenção ao que vou lhes contar, pois é assim que nascem heróis.
“...
        Talbor, um bom lugar para se morar, a vila mais ao sul das terras de Cavurrodro. Ali sopra a brisa mais agradável do mundo. Os fazendeiros e agricultores são amigáveis e a taverna é a diversão do povo nas noites estreladas. A guarda era composta pelos três irmãos Gagandir e nunca houve muito trabalho para eles, às vezes uma briga por galinhas ou bêbados perturbando a paz. Ernesto, o prefeito da vila passava os dias cuidando das exportações para as cidades e às vezes gostava de parar e pescar. As crianças iam à escola e, depois, costumavam brincar nos pomares perto dos bosques de Krip, sempre as vistas de Barnur, o velho responsável pelo pomar. Naquele dia todos estavam empolgados, pois seus amigos estavam regressando depois de decidirem tornar-se um grupo de desbravadores e aventureiros.
            Havia Burne, o guerreiro humano de escudo e espada, Onoss Lorhem, elfo e ladrão caçador de tesouros, a jovem ladra Shir Leenark, viajante da ilha Ma’Rion, Turundir, elfo clérigo de Harkimedes, amigo de Ziltar e, Raderon, jovem mago aprendiz de Juct. A ausência de dois deles fora notada, Fara’Un, o velho mago da vila e Fadryk, o clérigo de Vertrarez. Ambos ficaram para trás para receberem a recompensa pelo serviço e em breve estariam de volta.
            Abraços, gargalhadas, saudações, boa comida e vinho, tudo isso em uma grande festa na vila. Mesas foram postas na Praça, Jortan tocava sua lira para animar o ambiente já tão animado. O grupo recém-chegado contava sobre sua primeira expedição às minas Targut para fazerem a proteção dos operários quando uma voz fraca é ouvida na praça: “Socorro...”. Era o mais jovem dos irmãos Gagandir, ele mancava e seu rosto estava inchado e cheio de hematomas. Rapidamente, limparam uma das mesas e deitaram-no.
- O que houve Jarir? – perguntou Ernesto horrorizado
- Bandidos... Roubaram os suprimentos da exportação de hoje... Foram para Krip... Meus irmãos... As crianças... Barnur...
O jovem Jarir desmaiou de dor, sem conseguir concluir a fala, enquanto, as senhoras do tricô, vinham em seu socorro.
As pessoas se entreolhavam com feições de desespero, pois nunca algo assim ocorrera em Talbor. Ernesto, prevendo o princípio de pânico, tomou a palavra:
- Vamos todos manter a calma! Berg, Eurur e Tacar, fiquem na vila e protejam todos de qualquer bandido que espreite por aí. O restante dos homens venha comigo para Krip.
- Esperem! – disse Turundir, o elfo clérigo – Com sua licença, Ernesto. Deixe conosco! Harkimedes nos guiará até os irmãos de Jarir e os filhos de Talbor.
            O grupo deixou os cavalos na vila e percorreram rapidamente a orla do pomar com suas armas em punho. O sol do entardecer ainda pairava no céu quando avistaram o casebre de Barnur.
- Se raptaram as crianças tiveram que passar por aqui. – disse Onoss, o elfo ladrão.
- Somos uma vila pequena, não conseguiriam nada sequestrando as crianças – disse Shir, a jovem ladra – um resgate incluiria apenas algumas moedas.
- Não me interessa o que pretendem – disse Burne, o guerreiro – esse animais sentirão a lâmina de minha espada em suas gargantas.
- Vá com calma, Burne! A segurança das crianças deve ser nossa principal preocupação. – disse Turundir
- Ótimo! – disse Raderon, o jovem mago aprendiz – De qualquer forma vou testar minhas novas habilidades.
Silêncio! – alertou Onoss, mas foi tarde. Pequenas criaturas verdes de dentes afiados e orelhas pontudas saltaram da copa das macieiras. Os goblins trajavam trapos e roupas de couro improvisadas, tinham adagas e espadas nas mãos.
- Sai, sai! – berrou um dos goblins – somos dentes verdes! Sai, sai! Crianças, nossas! Nossas!
Antes que qualquer resposta pudesse ser dita, Burne saltou para frente com a espada erguida, descendo-a violentamente contra o goblin que berrou enquanto a espada cortava sua carne.
Em um piscar de olhos Onoss e Shir armaram flechas em seus arcos e disparam em cheio contra os goblins atirando-os no chão. Turundir girou seu mangual, enquanto um dos goblins correu para esfaquear seus joelhos, mas antes disso o mangual desceu chocando-se contra a cabeça da criatura e atirando-a longe. Assustado, o ultimo goblin de pé, guincha e corre em direção ao bosque de Krip.
- Acerte-o, Raderon! Não deixe que fuja – berrou Burne
Recitando algumas palavras de posse de um livro na mão, Raderon apontou sua mão direita para a criatura em fuga. Mas nada aconteceu.
- Maldito aprendiz! – praguejou Burne
- Rápido! Atrás dele! – disse Shir iniciando uma corrida – ele nos levará as crianças.
O goblin corria desesperado por entre as árvores enquanto flechas voavam por cima de sua cabeça. Ele então entrou no bosque de Krip saltando sobre raízes altas e arbustos espinhosos, de relance olhava para trás e aumentava a velocidade sempre que avistava o grupo de aventureiros em seu encalço.
O grupo parou a corrida em frente uma pequena cachoeira que alimentava um lago. Ali já não viam mais o goblin.
- Maldição! – disse Burne – Agora nunca acharemos aquela criatura.
- Não perca a esperança homem – disse Turundir
- Seu rastro termina nesta pedra, – disse Onoss subindo em cima de uma pedra próximo a cachoeira – ele entrou no lago ou existe alguma passagem por aqui.
- Aposto que entrou na água – disse Burne caminhando para dentro do lago
- Não vá muito fundo! – disse Shir
Mas, Burne afundou no lago. Lá em baixo a visão era turva, mas ainda sim conseguia ver troncos e pedras no fundo. Não é um lago tão grande assim, ele pensou. Procurava alguma caverna submersa ou mesmo o goblin escondido. Teve que subir, respirou vigorosamente, ouviu Shir lhe falar algo, mas não deu importância e mergulhou novamente. Não era fácil nadar com seu peitoral de couro, mas Burne era forte o bastante para fazê-lo. Até que viu algo brilhante, parecia prata, um colar, deveria valer mais que trinta peças de ouro. Burne nadou até o fundo e esticou a mão para apanhá-lo, ao fazer isso, viu algo se mexer no fundo, levantando uma nuvem de terra e, antes que pudesse se afastar um crocodilo-verde abocanhara seu braço. A dor irradiava-se por todo o seu corpo, a força da mordida era demais para que pudesse se soltar, deu cambalhotas na água lutando para subir. Já tinha perdido todo o seu ar quando ouviu um som nada agradável, parecia um graveto se partindo, depois disso conseguiu subir, cambaleou para sair do lago enquanto era abraçado por Turundir que logo o recostou nas pedras. Só então seu ouvido se abriu.
- Droga, Burne, falei pra não ir para o fundo! – gritou Shir – Tem crocodilos-verdes aqui.
- Tudo bem Shir, me ajude a envolver o ferimento. – disse Turundir
- Burne! Olhe pra mim, não durma! – disse Onoss segurando a cabeça de Burne.
- O que ele está olhando? – perguntou Burne ao ver Raderon horrorizado
- Você perdeu seu braço idiota – gritou Shir, apertando o nó no que restou do braço ensanguentado do guerreiro que só então perceberá que não conseguia mais movimentar a mão direita, nem o braço. Havia sangue em todo seu couro, escorria sem parar, Turundir e Shir tentavam estancá-lo.
            O clérigo ajoelhou-se com as mãos sobre o ombro do guerreiro e entoou uma breve oração, luzes púrpuras surgiram e se dissiparam sobre o ferimento.
- Você já conseguirá andar. – disse Turundir – Onoss leve-o de volta a vila.
O elfo segurou Burne e o ajudou a andar bosque adentro, retornando para a vila.
            Shir avistou uma fresta embaixo da cachoeira. Possivelmente um goblin poderia ter passado por aqui. Ela então se pôs a entrar abaixada e, não demorou muito até avistar uma luz no pequeno túnel. Guerreiro idiota, pensou, lembrando-se de Burne.
- Fale direito, goblin! – disse uma voz que ecoava no túnel
- Mataram, mataram – ecoava com certeza, a voz do goblin fugitivo – nos atacaram no pomar. Eu correr aqui, eles vem pra cá, vem, vem sim.
- Que venham, vamos matá-los. – ouviu-se uma voz diferente da primeira
Sem fazer barulho, Shir, retornou. Quando saiu pela fresta, Turundir e Raderon já aguardavam. Fazendo sinal de silêncio, ela convocou ambos a entrarem. Antes, Turundir deixou na entrada uma de suas contas de seu terço de orações.
            Posicionados atrás de grandes pedras, Turundir, Raderon e Shir observavam uma espécie de câmara de pedra. As paredes úmidas demonstravam sua antiguidade, havia caixas e barris com o selo de Talbor, eram os suprimentos roubados. Uma grande porta de pedra estava aberta em uma das paredes, seu interior era escuro e gotas d’água pingavam lá de dentro. Contavam-se cinco goblins em volta de três sacos que se mexiam a todo o momento, podiam-se ouvir choros bem baixos na câmara. Também estavam ali, três homens com coletes de couro e espadas curtas quase enferrujadas, eles tinham um aspecto detestável de sujeira.
- Será que essas crianças não calam a boca?! – disse o mais alto dos bandidos
- É necessário! – disse o mais sujo – já enviamos duas delas e ainda não voltaram. Nem Adi e Brog voltaram.
- Será que eles morreram? – perguntou o mais curvado
Nenhum deles conseguiu prestar atenção, pois Shir surgiu de trás das pedras atirando flechas no bandido mais alto que tombou para trás quando uma delas atravessou seu pescoço. Raderon leu um de seus pergaminhos em voz alta e dele saíram mísseis de energia mágica que atingiram os goblins com explosões audíveis, nocauteando-os. O elfo clérigo rodopiou seu mangual avançando enquanto repelia com o escudo de madeira um golpe de espada do bandido mais curvo, em seguida, acertou um poderoso golpe lateral na cabeça do bandido jogando-o de lado no chão. O bandido mais sujo correu para dentro do corredor escuro aos berros.
- Adi Brog, socorro!
- Deixe-o! – disse Turundir – vamos abrir esses sacos.
Três crianças foram retiradas dos sacos, lágrimas escorriam dos olhos. Suas amarras nos pulsos foram cortadas. Depois de se acalmarem, Shir perguntou:
- Quantos mais estavam com vocês, pequenos?
- Alyne e Petro estavam conosco – respondeu uma das crianças – mas mandaram eles pelo corredor. Disseram para acharem o túmulo de um lorde antigo. Magalor, ele disse.
- Não é possível! – exclamou Shir
- Crianças, conseguem voltar para a vila? – perguntou Turundir
- Sim, conseguimos.
- Então o façam o mais rápido possível. Harkimedes os manterá em segurança, vamos achar seus amigos! Agora, vão!
As crianças saíram em corrida para fora do túnel. Enquanto Raderon, em dúvida, perguntava:
- Mas quem é esse Magalor?
- Um lorde cavaleiro. Servia ao rei Karatin do norte. As lendas diziam que em algum lugar de Cavurrodro estava seu cofre secreto. Acho que o achamos. Veja! – disse Turundir apontando o selo na porta de pedra – O K e espada de gelo, os símbolos de Karatin.
- Isso é ótimo. Quantos tesouros podemos achar. Posso saldar minha dívida antes do que imaginei. – disse Shir aproximando-se do corredor
- Não se esqueça das crianças! – advertiu o clérigo – Deve ser nossa prioridade.
            Os três adentraram ao corredor estreito e úmido. As paredes estavam cobertas por um musgo verde.
- Está escuro aqui. – disse Raderon
Turundir disse algumas palavras para seu símbolo sagrado e ele se iluminou revelando uma trifurcação à frente. Nesse mesmo momento, uma explosão é ouvida ecoando pelo corredor da esquerda.
- O que foi isso? – disse Raderon
- Pode ser uma das crianças. Rápido! – disse Turundir correndo pelo corredor
- Não! – gritou Shir segurando o braço do elfo
Ela se pôs a frente do clérigo e atirou uma pequena pedra para frente. Quando a pedra chocou-se contra o chão, uma saraivada de dardos foi cuspida da parede. Abaixando-se, ela apalpou o piso até achar uma placa de pedra solta. Com a adaga ela a levantou. Havia um buraco onde dentro estava uma bexiga de couro de inflada, um dispositivo de acionamento. Com um golpe firme ela fez a bexiga murchar e, em seguida, avançou na frente dos companheiros.
            Uma porta de pedra estava à frente. Shir observou por alguns segundos e a abriu, dentro estava uma pequena sala com muito cascalho no chão, um baú fechado encostado em um canto da sala e, próximo a ele, o chão estava melado com sangue e, partes de braços e pernas e roupas rasgadas estavam por toda a parte.
- Mas que criatura fez isso? – perguntou Shir
- Não foi criatura – disse Raderon estendendo a mão próxima do chão – é magia! Vamos embora, essas partes são de um adulto. As crianças não vieram para cá.
- Mas tem um baú na... – disse Shir quando Raderon deixou cair um de seus pergaminhos no chão da sala. A explosão foi grande, fazendo mais cascalho cair do teto e jogando Raderon ao chão.
- Vamos pelo outro lado. – finalizou Turundir
            De volta à trifurcação o grupo decidiu ir para o corredor da frente. Shir, sempre à frente, detectou uma nova armadilha no chão, desarmando-a prontamente. Uma porta a frente fora aberta e o local estava parcialmente iluminado, uma fresta no teto fazia um raio de luz incidir direto em um pequeno altar no centro da sala, sobre ele, um livro aberto e empoeirado. Ninguém conseguia ler suas palavras, mas Raderon reconhecia os símbolos como runas mágicas, possivelmente um grimório de magia.
            Caminharam pelo último corredor onde uma porta existia na parede da esquerda e o corredor se prolongava.
- Esta porta está aberta – disse Shir – Talvez tenham vindo para cá.
- Petro! Alyne! – chamou Turundir
Eles caminharam para dentro da sala. O lugar era escuro, empoeirado, havia ossos no chão e teias enormes recobriam as paredes da sala. Dois grandes casulos estavam no canto da sala próximo de um baú. De repente três aranhas do tamanho de cães desceram sorrateiramente do teto, famintas pela carne dos presentes.
            Rapidamente Turundir pôs seu escudo a frente enquanto Shir e Raderon se posicionaram atrás armando-se. As aranhas deslizavam pela sala subindo as paredes, rodeando o grupo, esperando o melhor momento de dar o bote.
- E agora? – disse Raderon com voz tremula
- Temos que neutraliza-las – disse Turundir – as crianças podem estar nesses casulos. O tempo delas está correndo.
Uma das aranhas saltou da parede para cima de Turundir que aparou sua queda com o escudo caindo de costas no chão frio. Outra aranha avançou com suas presas na altura dos joelhos de Shir que saltou sobre ela e atirou suas flechas, que ficaram cravadas na aranha. Raderon leu seu pergaminho o mais rápido que pode, mas no meio da leitura foi derrubado e sentiu a dor tomar conta de seu corpo quando o ferram da aranha entrou em sua barriga, não se conteve e gritou. Shir tentou circular a sala para ajudar seu amigo, mas foi cercado pela aranha que mais uma vez atacou sua perna e por pouco não a atingiu, ela disparou novas flechas.  Turundir forçava o escudo para tentar se levantar, mas a criatura tentava morder seu rosto desesperadamente e atacava com o ferrão que batia em seu escudo fazendo audíveis toc, toc.
- Não pare de lutar Raeron. – disse Shir
Mas o jovem aprendiz deixara seu pescoço desprotegido e uma mordida foi direcionada ali. O sangue escorria e salpicava pelo chão quando a aranha se ergueu repentinamente e deslizou para o lado se debatendo e guinchando. Era Onoss, que cravara suas adagas na cabeça da aranha e a arrancara de cima de seu amigo. Com ele estava um jovem humano clérigo com sua túnica gravada com símbolos da deusa Vertrarez, armado com um martelo, ele golpeou a aranha que atacará Turundir de cima para baixo livrando o elfo. Shir desferia mais duas flechas na aranha a sua frente que finalmente fora derrotada. Mais um golpe de martelo fez a aranha parar de se mexer. Onoss girou suas lâminas e matou a ultima aranha. Turundir ignorou todos e correu até os casulos rasgando-os com uma das flechas de Shir, dentro estava um bandido, sua pele estava branca e murcha. O clérigo o deixou de lado e abriu o outro casulo. Tomou o menino nos braços, também pálido, segurou seu símbolo sagrado e iniciou uma oração, lágrimas escorriam de seus olhos fechados. O clérigo de Vertrarez aproximou-se e fez o mesmo. Alguns minutos depois, ambos silenciaram, deitaram o corpo de Petro e cada um o abençoou conforme sua crença. Eles levaram os corpos do menino e de Raderon para a câmara de entrada, enrolaram seus corpos em tecidos retirados das caixas de suprimento e sentaram-se por um instante.
- Vertrarez o tem em seus braços agora. – disse o clérigo recém-chegado
- Quando chegou a Talbor Fadryk? – perguntou Shir
- O encontrei assim que deixei Burne na vila – respondeu Onoss – Havia acabado de chegar e logo quis nos ajudar.
- É meu dever socorrer os filhos de minha vila – disse Fadryk – melhor ainda na companhia de meus amigos.
- Você não estava na companhia de Fara’Un? – perguntou Turundir
- Sim. Mas nos separamos em Paraton. O velho mago estava e procura de algo para seus estudos.
- O velho mago agora perdeu um amigo de artes. – disse Onoss pousando a mão sobre o corpo de Raderon
- Ergam-se! – disse Turundi retomando seu escudo e mangual – devemos continuar, vamos atrás de Alyne e de Barnur. Do contrario Raderon terá morrido em vão.
            Onoss e Shir lideravam a caminhada e logo acharam uma armadilha que já havia sido ativada, manchas cinza estavam nas paredes como se tivessem ateado fogo a elas. No chão, o corpo de um dos bandidos, morto, queimado pelas chamas. Menos um bandido burro pensou Shir.
            Mais a frente no corredor, o grupo encontrou Barnur caído à frente de um portão gradeado. Ele fora pego em uma armadilha em frente ao portão, lanças curtas atravessaram seus pés.
- Graças a Ruternof! – disse fracamente Barnur
- O que houve Barnur? – perguntou Fadryk, o pondo encostado na parede
- Esses malditos bandidos nos fizeram atravessar estes corredores cheios de armadilhas para achar o túmulo de Magalor. Mandaram até as crianças.
- Alyne? Onde está a pequena Alyne? – disse Onoss, se exaltando.
- Ela estava comigo. Entrou por esse portão.
- Está aberto, vamos! – disse Onoss, entrando pelo portão.
            O portão cedia passagem para um pequeno corredor que se abria em uma grande câmara. Colunas se levantavam nas laterais, entre elas haviam quatro túmulos de pedra, a frente outro túmulo, ornamentado com desenhos de felinos. Acima estava um chifre, com entalhes dourados, provavelmente uma corneta de alarme de um cavaleiro, de Magalor. Justamente o que Alyne se esticava para apanhar. A menina estava sobre o túmulo quase alcançando o chifre.
- Não toque, Alyne! – gritou Onoss no momento em que a menina agarrara o chifre.
Imediatamente, as tampas dos túmulos se estilhaçaram em milhões de pedaços, espalhando pedras por toda a câmara e lançando Alyne no chão. De dentro deles, esqueletos se movimentaram para fora com espadas em punho, mortos-vivos guardiões da câmara. O próprio Magalor, cavaleiro do rei Karatin, levantou-se com sua espada de punho de leão e armadura de aço, castigada pelo tempo.
            Os esqueletos avançaram para atacar o grupo com suas armas. Shir esquivou-se de um golpe rolando para o lado e atirando-se para apanhar Alyne, ainda desnorteada pela queda. Onoss atacou esse mesmo esqueleto com suas adagas, mas apenas conseguiu afastá-lo. Turundir pôs seu escudo na frente de um poderoso golpe do esqueleto de Magalor, a força do golpe o fez ajoelhar. Enquanto isso, Fadryk atirou seu martelo contra um dos esqueletos que avançara para atacá-lo, o martelo chocou-se contra o esqueleto fazendo os ossos voarem despedaçados. Os outros dois esqueletos que ainda avançavam, enterraram suas espadas no corpo Fadryk, em seu ombro e em sua barriga, a dor foi imediata. Onoss saltou sobre um dos esqueletos que atacara o clérigo de Vertrarez, no chão ele o atingiu com um ataque crítico de suas adagas que partiu o crânio do inimigo.
            Turundir empurrou Magalor para trás, quando Shir disparou várias flechas nele fazendo as ombreiras de sua armadura cair. Turundir o golpeou com seu magual, mas Magalor se manteve de pé, desferindo um golpe contra ele que o fez rolar no chão e o deixou com o braço esquerdo ensanguentado. Shir segurou Alyne e correu para sair de um forte ataque de Magalor que, agora, vinha em seu encalço. Fadryk conseguiu se desvencilhar do aço que perfurara seu ombro e, aos tropeços, recuperou seu martelo a tempo de defender mais um ataque do esqueleto. Desta vez, Fadryk o empurrou, atirando-o no chão, levantou seu martelo e disse:
- Deusa da vida abençoe minha arma contra seus inimigos!
Seu martelo foi envolvido com forte luz e, imediatamente, o clérigo desceu sua arma com um poderoso golpe enquanto gritava:
- Que os mortos fiquem mortos!
 O golpe explodiu o esqueleto, espalhando ossos e partículas brilhantes por toda a câmara.
            Onoss atacou com um chute o esqueleto que restava, o golpe o jogou próximo a Turundir que, mais que rápido, girou seu mangual acertando-o no crânio com um alto CRANC. Enquanto isso, Shir escapava de mais um golpe de Magalor, o terceiro lhe acertou as costas pondo um risco na armadura de couro e derrubando ela e Alyne no chão, próximo a uma pilastra.
- Fadryk, venha cá. – disse Turundir, ajudando-o a levantar.
O clérigo de Vertrarez sangrava bastante, mas ainda mantinha-se consciente. Ambos seguraram fortemente seus respectivos símbolos sagrados, enquanto Onoss desviava de um ataque e Shir disparava flechas que resvalavam na armadura do morto-vivo. Mais um ataque, desta vez lançou Onoss contra uma das pilastras e o outro fez Shir rolar pelo chão.
            Magalor se pusera a frente de Alyne, a menina ainda segurava o chifre. Amedrontada e chorosa, sua única reação fora cobrir os olhos. O esqueleto do cavaleiro ergueu a espada para atacar, mas suas pernas dobraram ante ao ataque de Onoss e Shir que dispararam certeiramente suas flechas. O monstro girou para confrontá-los e deparou-se com os dois clérigos, seus símbolos sagrados ardiam em uma aura púrpura e branca. Eles ergueram seus braços:
- Harkimedes! Afaste-o de seus servos. – disse Turundir
- Que os mortos fiquem mortos! – disse Fadryk mais uma vez
E apontaram seus símbolos no crânio de Magalor, irradiando poder divino por toda a câmara e atravessando os ossos do esqueleto com luzes brancas e púrpuras que explodiram seu corpo em vários pedaços de ossos.
- Já acabou, criança, pode abrir os olhos. – disse Shir, tomando Alyne nos braços.
- Os homens maus mandaram pegar alguma coisa. Eu peguei – disse a menina
- Sim. Você é muito corajosa Alyne. – disse Fadryk – agora vamos para casa.
- E os tesouros? – perguntou Onoss
- Já perdemos muito aqui meu amigo. – disse Turundir – não quero perder meus companheiros por nenhuma riqueza que há aqui.
Onoss assentiu com a cabeça. E todos os outros fizeram como ele.
            O grupo retornou para a vila de Talbor, levando Barnur e Alyne sãos e salvos e os corpos de Petro e Raderon. Um misto de alegria e tristeza tomou conta da vila.
            Imediatamente foi feito o enterro dos mortos. Toda a vila compareceu para prestar suas condolências. Os pais de Petro aceitaram as flores e as ofertas de ajuda para qualquer coisa que precisassem e, eles, por sua vez, agradeceram ao grupo por sua bravura e a tentativa de salvar seu filho e, ainda, deram os pêsames pela morte de Raderon.
            Acamado, Burne abraçou seus companheiros e lhes comunicou que não poderia seguir mais com eles até aprender a lutar com apenas um braço, pediu desculpas por sua burrice e os desejou a sorte dos deuses em suas novas viagens.
Uma semana depois, Ernesto veio até o grupo em uma noite calma.
- Meus amigos, sua chegada foi uma alegria para nós. Mas temo que devam partir.
- Como assim, Ernesto? – perguntou Turundir
- Uma mensagem chegou agora pouco. O rei Tardirus ouviu seus feitos e os convidou para seu quadragésimo aniversário. Será no grande reino de Paraton. ...”
- E, é por isso que digo a vocês, senhores – cantarolou Santiago Froy – aquele lugar é perigoso. Os Arautos da Vitória já o desbravaram e receberam duros golpes lá. Se vão tentar a sorte em Krip, devem estar dispostos a perder mais que tempo.
            A tempestade já terminara quando Santiago terminou seu conto. O grupo de aventureiros sentados à mesa se entreolhou e Truar tomou a palavra:
- E então, alguém tem outro plano?
 
Fabrício Oliveira Suarez
Ruternof